Thursday, September 13

Por Entre Fios

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Les Objects Familiers, 1928
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Há homens que rezam na penumbra
das catedrais dolentes e há outros
que do alto das pontes olham
a escuridão rumorejante das águas.
Há homens que esperam na orla
marítima e outros arrastando-se
no viscoso esterco dos subterrâneos.
Há homens debruçados em pleno azul
e outros que deslizam sobre densos verdes;
há os desatentos na atenção e os que
espreitam atentamente a ocasião.
Há homens por fora e por dentro
do cimento armado, suspensos
das mil ciladas do quotidiano voraz;
de encontro aos muros, às paredes,
ao sol do meio-dia, ao visco da noite,
às sediças solicitações de cada instante.
Há a impotência poderosa da oração
e a obsessão amarga dos suicidas
e, de permeio, os que, porque hesitam,
porque ignoram, porque não crêem,
não oram, nem se suicidam
e se quedam ante a impossibilidade de destrinça
entre o fio da vida e a vida por um fio.
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Rui Knopfli, in O Fio da Vida
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4 comments:

rigoletto said...

Há, sobretudo, vários homens, distintos, com sensibilidades e capacidades variáveis e variadas.

Os educados. Os cultos. os educados/cultos. Os inteligentes. Os espertos. Os que se emocionam. Os que só riem. Os outros.

Há quem veja num pássaro a voar um sinónimo de liberdade. Quem nisso veja uma ameaça de ter de mudar de roupa...

O mesmo facto.
Duas visões.
Melhor. Uma só.

Zénite said...

E todavia, há homens - e mulheres, evidentemente - que conseguem o estável equilíbrio sobre o gume afiado da angústia. E ainda bem que assim é, ou não valeria a pena andarmos por cá.

Poema inquietante!

Abraço.

Pedrita said...

adorei essa tela e o poema. beijos, pedrita

isabel victor said...

Ai como eu adoro esta música com que nos recebes ! Como eu a adoro ... e há quanto tempo não a ouvia.

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