Monday, August 27

Diálogos

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. L'Amour Desarmé, 1935
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Espelho, amigo verdadeiro,

Tu reflectes as minhas rugas,

Os meus cabelos brancos,

Os meus olhos míopes e cansados.

Espelho, amigo verdadeiro,

Mestre do realismo exacto e minucioso,

Obrigado, obrigado!
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Mas se fosses mágico,

Penetrarias até ao fundo desse homem triste,

Descobririas o menino que sustenta esse homem,

O menino que não quer morrer,

Que não morrerá senão comigo,

O menino que todos os anos na véspera do Natal

Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.
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Manuel Bandeira, Lira dos cinquent' anos
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5 comments:

Mar Arável said...

ok natal.ternas são as flores

rigoletto said...

Sob cada homem há sempre o menino que se foi...ou que nunca deixou de se ser.
Nem sempre é transparente, revelado, descoberto. Porque pode não "parecer bem", nem ser apropriado ou correcto.
Mas ele existe.
Ainda bem.

teresamaremar said...

:) existe.
E, como todos os meninos, é irreverente e teima espreitar. Com o tempo, aprendemos a não o conter, pois assim é e sabe bem.

Zénite said...

Lembrei-me destes "espelhos":

As águas maravilham-se entre os lábios
e a fala, rápidos
em Sintra espelhos surgem como pássaros,
a luz de que se erguem acontece às águas,
à flor da fala
divide os lábios e a ternura. Da linguagem
rebentam folhas duma cor incómoda, as de que
maravilhado de água surges entre
livros, algum crime, um
menino a dissolver-se ou dele os lábios e ergues
equívoca a luz depois. Rápidos
espelhos então cercam-te explodindo os pássaros


Luís Miguel Nava

Bandida said...

a vida não é só uma questão de tempo. idiomas. marés.


beijo teresamar.


B.
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