Sunday, September 30

porque a memória é de pedra

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. Souvenir de Voyage III, 1951
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O homem ama na terra natal os seus hábitos, se ali reside ou residiu muito tempo; ama a sua casa e o seu agro, se os tem; e ama, sobretudo, a sua infância, que lhe comandará a vida inteira e se amalgama com o drama biológico do envelhecimento e da morte.
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David Mourão-Ferreira
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Saturday, September 22

Desvarios

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. Le Premier Jour, 1943
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Ainda haverá música um dia? Subitamente às vezes penso, um terror absurdo, que é da menoridade, a música, a arte, tudo aquilo em que precisamos de reclinar um pouco a cabeça.
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Vergílio Ferreira
in Alegria Breve
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Tuesday, September 18

Marioneta de Trapo

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Entr'acte, 1927
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Se, por um instante Deus se esquecesse do que sou
uma marioneta de trapo e me presenteasse
com um pedaço de vida, possivelmente não diria
tudo o que penso, mas, certamente, pensaria
tudo o que digo.
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Daria valor às coisas não pelo que valem mas
pelo que significam.
Dormiria pouco, sonharia mais pois sei que a cada
minuto que fechamos os olhos, perdemos
sessenta segundos de luz.
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Andaria quando os demais
parassem, acordaria quando os outros dormem.
Escutaria quando os outros falassem e gozaria um
bom sorvete de chocolate.
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Se Deus me presenteasse com um bocado de vida,
vestiria simplesmente, me jogaria de bruços
no solo, deixando a descoberto não apenas meu
corpo, como minha alma.
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Deus meu, se eu tivesse um coração escreveria meu
ódio sobre o gelo e esperaria que o sol saisse.
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Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre estrelas
um poema de Mario Benedetti e uma canção de
Serrat seria a sereneta que ofereceria à lua.
Regaria as rosas com minhas lágrimas para sentir a
dor dos espinhos e o encarnado beijo das suas pétalas.
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Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida.
não deixaria passar um só dia sem dizer às gentes
te amo, te amo.
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Convenceria cada mulher e cada homem que são
os meus favoritos e viveria enamorado do amor.
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Aos homens lhes provaria como estão enganados ao
pensar que deixam de se apaixonar quando
envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam
de se apaixonar.
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A uma criança, lhe daria asas, mas deixaria
que aprendesse a voar sozinha.
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Aos velhos ensinaria que a morte não chega com a
velhice, mas com o esquecimento.
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Tantas coisas, aprendi com vocês, os homens...
Aprendi que todo o mundo quer viver no cimo da montanha,
sem saber que a verdadeira felicidade
está na forma de subir a escarpa.
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Aprendi que quando um recém nascido aperta com a sua
pequena mão o dedo de seu pai, o tem
prisioneiro para sempre.
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Aprendi que um homem só tem direito de olhar um
outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se.
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São tantas as coisas que pude aprender com vocês, os homens...
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Johnny Welch ou Garcia Marquez
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a polémica sobre a sua autoria persiste
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Thursday, September 13

Por Entre Fios

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Les Objects Familiers, 1928
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Há homens que rezam na penumbra
das catedrais dolentes e há outros
que do alto das pontes olham
a escuridão rumorejante das águas.
Há homens que esperam na orla
marítima e outros arrastando-se
no viscoso esterco dos subterrâneos.
Há homens debruçados em pleno azul
e outros que deslizam sobre densos verdes;
há os desatentos na atenção e os que
espreitam atentamente a ocasião.
Há homens por fora e por dentro
do cimento armado, suspensos
das mil ciladas do quotidiano voraz;
de encontro aos muros, às paredes,
ao sol do meio-dia, ao visco da noite,
às sediças solicitações de cada instante.
Há a impotência poderosa da oração
e a obsessão amarga dos suicidas
e, de permeio, os que, porque hesitam,
porque ignoram, porque não crêem,
não oram, nem se suicidam
e se quedam ante a impossibilidade de destrinça
entre o fio da vida e a vida por um fio.
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Rui Knopfli, in O Fio da Vida
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