Monday, August 27

Diálogos

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. L'Amour Desarmé, 1935
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Espelho, amigo verdadeiro,

Tu reflectes as minhas rugas,

Os meus cabelos brancos,

Os meus olhos míopes e cansados.

Espelho, amigo verdadeiro,

Mestre do realismo exacto e minucioso,

Obrigado, obrigado!
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Mas se fosses mágico,

Penetrarias até ao fundo desse homem triste,

Descobririas o menino que sustenta esse homem,

O menino que não quer morrer,

Que não morrerá senão comigo,

O menino que todos os anos na véspera do Natal

Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.
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Manuel Bandeira, Lira dos cinquent' anos
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Thursday, August 16

Ternas São as Horas

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. La Ruse Symétrique, 1928
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Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
de frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada...
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Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio...
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Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...
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Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!
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David Mourão-Ferreira, Infinito Pessoal ou a Arte de Amar
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Friday, August 3

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ilustração
de
infância
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. Maggie Taylor, Dawnsm
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René Magritte, La Jeunesse Illustrée

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Menino doido, olhei em roda, e vi-me

Fechado e só na grande sala escura.

(Abrir a porta, além de ser um crime,

Era impossível para a minha altura...)

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Como passar o tempo?...E diverti-me

Desta maneira trágica e segura:

Pegando em mim, rasguei-me, abri, parti-me,

Desfiz trapos, arames, serradura...

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Ah, meu menino histérico e precoce!

Tu, sim! Que tens mãos trágicas de posse,

E tens a inquietação da Descoberta!

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O menino, por fim, tombou cansado;

O seu boneco aí jaz esfarelado...

E eu acho, nem sei como, a porta aberta!

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José Régio. Libertação,in Poemas de Deus e do Diabo
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Michael Dudok de Wit. Father and Daughter, 2000
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Father and Daughter

Direction, Design and Story, Michael Dudok de Wit. 2000

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Michael Dudok de Wit. Father and Daughter, 2000
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Ma jeunesse ne fut qu'un ténébreux orage,
Traversé çà et là par de brillants soleils ;
Le tonnerre et la pluie ont fait un tel ravage,
Qu'il reste en mon jardin bien peu de fruits vermeils.
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Voilà que j'ai touché l'automne des idées,
Et qu'il faut employer la pelle et les râteaux
Pour rassembler à neuf les terres inondées,
Où l'eau creuse des trous grands comme des tombeaux.
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Et qui sait si les fleurs nouvelles que je rêve
Trouveront dans ce sol lavé comme une grève
Le mystique aliment qui ferait leur vigueur ?


- Ô douleur ! ô douleur ! Le temps mange la vie,
Et l'obscur Ennemi qui nous ronge le cour
Du sang que nous perdons croît et se fortifie !
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Baudelaire, L'Ennemi

.Maggie Taylor. Sweet Victory

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