Friday, November 23

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Le Faux Miroir, 1928

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Teus olhos sensuais
Libidinosa Marta,
Teus olhos dizem mais
Que a tua própria carta.
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As grandes comoções
Tu, neles, sempre espelhas;
São lúbricas paixões
As vívidas centelhas…
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Teus olhos imortais,
Mulher, que me dissecas,
Teus olhos dizem mais,
Que muitas bibliotecas!
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Cesário Verde, Lúbricas
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Saturday, November 17

Voyeur[ismos]

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. L'Espion, 1928
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ou o
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tédio das curiosidades satisfeitas
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Monday, November 12

verosimilhança

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. La Lectrice Soumise, 1928

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Todos os bons livros se assemelham no facto de serem mais verdadeiros do que se tivessem acontecido realmente, e que, terminada a leitura de um deles, sentimos que tudo aquilo nos aconteceu mesmo, que agora nos pertencem o bem e o mal, o êxtase, o remorso e a mágoa, as pessoas e os lugares e o tempo que fez.

Se conseguires dar essa sensação às pessoas, então és um bom escritor.
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Ernest Hemingway, in O Bom Escritor
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Saturday, October 27

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La Valse Hésitation, 1950
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Dá-me alegria...
Incendeia meu sangue arrefecido!
E depois meu amor...
Depois... deixa-me sonhar...
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Judith Teixeira
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Wednesday, October 17

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. Le Seducteur, 1953
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A viagem fazemo-la num qualquer modesto cargueiro
Existe ainda um porto onde não tivéssemos tocado?
Existe alguma espécie de tristeza que ainda não tivéssemos cantado?
O horizonte que a cada manhã tínhamos pela frente
Não era igual ao que à noite deixávamos para trás?
Quantas estrelas desfilaram à nossa frente
Roçando as águas
Não era cada aurora o reflexo
Da nossa grande nostalgia?
Mas é em frente que vamos, não é verdade?
É em frente que vamos.
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Nâzim Hikmet in Poemas da Prisão e do Exílio
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Sunday, October 7

Petits Riens

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Le Mariage de Minuit, 1926
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Mieux vaut n'penser à rien
Que n'pas penser du tout
Rien c'est déjà beaucoup
Ce sont ces petits riens
Que j'ai mis bout à bout
Ces petits riens
Qui me venaient de vous
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Serge Gainsbourg
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Sunday, September 30

porque a memória é de pedra

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. Souvenir de Voyage III, 1951
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O homem ama na terra natal os seus hábitos, se ali reside ou residiu muito tempo; ama a sua casa e o seu agro, se os tem; e ama, sobretudo, a sua infância, que lhe comandará a vida inteira e se amalgama com o drama biológico do envelhecimento e da morte.
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David Mourão-Ferreira
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Saturday, September 22

Desvarios

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. Le Premier Jour, 1943
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Ainda haverá música um dia? Subitamente às vezes penso, um terror absurdo, que é da menoridade, a música, a arte, tudo aquilo em que precisamos de reclinar um pouco a cabeça.
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Vergílio Ferreira
in Alegria Breve
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Tuesday, September 18

Marioneta de Trapo

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Entr'acte, 1927
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Se, por um instante Deus se esquecesse do que sou
uma marioneta de trapo e me presenteasse
com um pedaço de vida, possivelmente não diria
tudo o que penso, mas, certamente, pensaria
tudo o que digo.
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Daria valor às coisas não pelo que valem mas
pelo que significam.
Dormiria pouco, sonharia mais pois sei que a cada
minuto que fechamos os olhos, perdemos
sessenta segundos de luz.
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Andaria quando os demais
parassem, acordaria quando os outros dormem.
Escutaria quando os outros falassem e gozaria um
bom sorvete de chocolate.
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Se Deus me presenteasse com um bocado de vida,
vestiria simplesmente, me jogaria de bruços
no solo, deixando a descoberto não apenas meu
corpo, como minha alma.
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Deus meu, se eu tivesse um coração escreveria meu
ódio sobre o gelo e esperaria que o sol saisse.
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Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre estrelas
um poema de Mario Benedetti e uma canção de
Serrat seria a sereneta que ofereceria à lua.
Regaria as rosas com minhas lágrimas para sentir a
dor dos espinhos e o encarnado beijo das suas pétalas.
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Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida.
não deixaria passar um só dia sem dizer às gentes
te amo, te amo.
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Convenceria cada mulher e cada homem que são
os meus favoritos e viveria enamorado do amor.
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Aos homens lhes provaria como estão enganados ao
pensar que deixam de se apaixonar quando
envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam
de se apaixonar.
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A uma criança, lhe daria asas, mas deixaria
que aprendesse a voar sozinha.
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Aos velhos ensinaria que a morte não chega com a
velhice, mas com o esquecimento.
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Tantas coisas, aprendi com vocês, os homens...
Aprendi que todo o mundo quer viver no cimo da montanha,
sem saber que a verdadeira felicidade
está na forma de subir a escarpa.
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Aprendi que quando um recém nascido aperta com a sua
pequena mão o dedo de seu pai, o tem
prisioneiro para sempre.
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Aprendi que um homem só tem direito de olhar um
outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se.
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São tantas as coisas que pude aprender com vocês, os homens...
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Johnny Welch ou Garcia Marquez
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a polémica sobre a sua autoria persiste
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Thursday, September 13

Por Entre Fios

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Les Objects Familiers, 1928
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Há homens que rezam na penumbra
das catedrais dolentes e há outros
que do alto das pontes olham
a escuridão rumorejante das águas.
Há homens que esperam na orla
marítima e outros arrastando-se
no viscoso esterco dos subterrâneos.
Há homens debruçados em pleno azul
e outros que deslizam sobre densos verdes;
há os desatentos na atenção e os que
espreitam atentamente a ocasião.
Há homens por fora e por dentro
do cimento armado, suspensos
das mil ciladas do quotidiano voraz;
de encontro aos muros, às paredes,
ao sol do meio-dia, ao visco da noite,
às sediças solicitações de cada instante.
Há a impotência poderosa da oração
e a obsessão amarga dos suicidas
e, de permeio, os que, porque hesitam,
porque ignoram, porque não crêem,
não oram, nem se suicidam
e se quedam ante a impossibilidade de destrinça
entre o fio da vida e a vida por um fio.
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Rui Knopfli, in O Fio da Vida
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Monday, August 27

Diálogos

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. L'Amour Desarmé, 1935
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Espelho, amigo verdadeiro,

Tu reflectes as minhas rugas,

Os meus cabelos brancos,

Os meus olhos míopes e cansados.

Espelho, amigo verdadeiro,

Mestre do realismo exacto e minucioso,

Obrigado, obrigado!
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Mas se fosses mágico,

Penetrarias até ao fundo desse homem triste,

Descobririas o menino que sustenta esse homem,

O menino que não quer morrer,

Que não morrerá senão comigo,

O menino que todos os anos na véspera do Natal

Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.
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Manuel Bandeira, Lira dos cinquent' anos
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Thursday, August 16

Ternas São as Horas

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. La Ruse Symétrique, 1928
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Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
de frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada...
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Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio...
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Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...
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Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!
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David Mourão-Ferreira, Infinito Pessoal ou a Arte de Amar
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Friday, August 3

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ilustração
de
infância
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. Maggie Taylor, Dawnsm
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René Magritte, La Jeunesse Illustrée

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Menino doido, olhei em roda, e vi-me

Fechado e só na grande sala escura.

(Abrir a porta, além de ser um crime,

Era impossível para a minha altura...)

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Como passar o tempo?...E diverti-me

Desta maneira trágica e segura:

Pegando em mim, rasguei-me, abri, parti-me,

Desfiz trapos, arames, serradura...

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Ah, meu menino histérico e precoce!

Tu, sim! Que tens mãos trágicas de posse,

E tens a inquietação da Descoberta!

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O menino, por fim, tombou cansado;

O seu boneco aí jaz esfarelado...

E eu acho, nem sei como, a porta aberta!

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José Régio. Libertação,in Poemas de Deus e do Diabo
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Michael Dudok de Wit. Father and Daughter, 2000
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Father and Daughter

Direction, Design and Story, Michael Dudok de Wit. 2000

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Michael Dudok de Wit. Father and Daughter, 2000
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Ma jeunesse ne fut qu'un ténébreux orage,
Traversé çà et là par de brillants soleils ;
Le tonnerre et la pluie ont fait un tel ravage,
Qu'il reste en mon jardin bien peu de fruits vermeils.
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Voilà que j'ai touché l'automne des idées,
Et qu'il faut employer la pelle et les râteaux
Pour rassembler à neuf les terres inondées,
Où l'eau creuse des trous grands comme des tombeaux.
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Et qui sait si les fleurs nouvelles que je rêve
Trouveront dans ce sol lavé comme une grève
Le mystique aliment qui ferait leur vigueur ?


- Ô douleur ! ô douleur ! Le temps mange la vie,
Et l'obscur Ennemi qui nous ronge le cour
Du sang que nous perdons croît et se fortifie !
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Baudelaire, L'Ennemi

.Maggie Taylor. Sweet Victory

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Sunday, July 29

Limiares

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. Le Temps Menaçant, 1929 .
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L'Échelle du Feu, 1934
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Vamos caminhando aos ziguezagues entre o apocalipse e o paraíso perdido, muito perto do primeiro e muito distantes do segundo. Perdidos em sonhos e de sonhos perdidos.
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Rudolf Schlichter
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Tuesday, July 24

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.Le Visage du Génie, 1926-7
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Uma só coisa é necessária: a solidão, a grande solidão interior. Caminhar em si próprio e durante horas não encontrar ninguém - é a isto que é preciso chegar.
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Rainer Maria Rilke, in Cartas a Um Jovem Poeta
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Sunday, July 15

da Palavra à Poesia

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Portrait de P.-G. Van Hecke, 1928
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Havia no violoncelo uma poesia austera e pura, uma feição melancólica e severa que casavam com a alma de Inácio Ramos. A rabeca, que ele ainda amava como o primeiro veículo de seus sentimentos de artista, não lhe inspirava mais o entusiasmo antigo. Passara a ser um simples meio de vida; não a tocava com a alma, mas com as mãos; não era a sua arte, mas o seu ofício. O violoncelo sim; para esse guardava Inácio as melhores das suas aspirações íntimas, os sentimentos mais puros, a imaginação, o fervor, o entusiasmo. Tocava a rabeca para os outros, o violoncelo para si, quando muito para sua velha mãe.
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Machado de Assis, in O Machete
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Tuesday, July 10

Utopia, Mestria do Prazer
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Le Thérapeute, 1936
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"Discutem sobre a virtude e o prazer; mas primária e suprema é a questão sobre a felicidade humana: em que é que se situa, se numa única coisa se em muitas. Ora quanto a isto parecem mais propensos do que seria razoável para a corrente que defende o prazer, enquanto procuram definir a felicidade humana no seu todo ou na parte principal.
Designam por prazer todo o movimento ou todo o estado de corpo ou de alma nos quais o homem, guiado pela natureza, se delicia em viver. Nos prazeres que se reconhecem como autênticos, os utopianos assinalam diversas espécies: uns atribuem-nos à alma, outros ao corpo.
À alma associam o entendimento e o gozo que a contemplação da verdade faz nascer; a isso junta-se a recordação agradável de uma vida bem passada e a esperança sem vacilação de um bem futuro.
Quanto ao prazer do corpo, repartem-no por dois tipos. O primeiro deles será aquele que inunda os sentidos de uma acalmia de plenitude. Quanto a um segundo, gozar de saúde sem entraves de doença; na realidade, se não houver que enfrentar a dor, o bem-estar é já de si uma satisfação, mesmo que a vida decorra sem ocasionar um prazer vindo de fora.

. Le Maître du Plaisir, 1926

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Abraçam os utopienses, principalmente e em primeiro lugar, os prazeres do espírito (consideram-nos, efectivamente, acima de todos, no topo).
Quanto à beleza, à robustez, à destreza, os utopienses cultivam-nas de bom-grado como verdadeiros dons da natureza que são também aprazíveis. Melhor ainda, como condimentos que tornam a vida aprazível, buscam prazeres que entram pelos ouvidos, pelos olhos, pelas narinas, que a natureza quis que fossem próprios e peculiares do homem (de facto, nenhuma outra espécie de animais se detém a olhar para a elegância e para a beleza, ou se deixa impressionar pelo encanto dos odores, a não ser que seja para distinguir alimentos, nem se apercebe das escalas dos sons e da sua harmonia ou dissonância).
O juízo dos utopienses é também aqui sempre o mesmo: um prazer de menor qualidade não deve criar obstáculo ao de maior qualidade."
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Thomas Morvs in Vtupia
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Thursday, June 28

Paroles du Rêveur

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. Attendant l'Impossible, 1928
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I
A quoi tu penses
Je pense au premier baiser que je te donnerai.
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II

Baisers semblables aux paroles du rêveur
Vous êtes au service des forces inventées.
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III
Aux rues de petites amours
Les murs finissent en nuit noire
J'aime

Et mes rideaux sont blancs.
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IV
Sans éclat et douce à son nid
Elle apparaît dans un sourire.
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V
Le 21 du mois de juin de 1906
A midi
Tu m'as donné la vie.
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Paul Éluard, in Une longue refléxion amoureuse
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Wednesday, June 20

Envelhecer

Les Rêveries du Promeneur Solitaire, 1926
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A primeira surpresa: agrada-me.
Agora, haja o que houver, algumas coisas
que eram assustadoras deixaram de o ser:
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por exemplo, não morri cedo. Nem perdi
o meu único amor. Nenhum dos meus três filhos
se viu forçado a abandonar ninguém.
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Não me digam que esta gratidão é complacente.
Todos nos aproximamos da mesma escuridão
que para mim é o silêncio.
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Saber isto ainda torna mais vivo
o meu deleite pelas frésias de Janeiro,
pelo café quente e pelo sol de Inverno. Assim
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dizemos, juntos, num momento de ternura:
cada dia que for ganho à escuridão
é tudo o que podemos celebrar.
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Elaine Feinstein
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Saturday, June 16

Turvas Horas

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. L'Empire des Lumières, 1954
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Turva hora onde
Principia a noite
E o dia se esconde
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Hora de abandonos
Em que a gente esquece
Aquilo que somos
E o tempo adormece
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Nevoenta hora
Hora de ninguém
Em que a gente chora
Não sabe por quem.
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E tudo se esconde
Nessa hora onde
Por estranha magia
Brilha o sol de noite
E o luar de dia.
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Natália Correia
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Wednesday, June 13

São Rosas

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René Magritte. Le Tombeau des Lutteurs, 1961

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Quem foi que riu na noite silenciosa,
Que o riso deu à noite a forma de uma rosa?
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Salvador Dali. Meditative Rose, 1958

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E quem chorou depois na noite densa,
Que a rosa se desfez em lágrima suspensa?

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Natália Correia

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Sunday, June 10

Há Um Poema...

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Le Siècle des Lumières, 1967

Há sempre mais um poema triste para sair da noite...
O luar sobe, imperturbável, deste sossego da terra,
o silêncio guarda em si a voz das rochas e dos montes,
o ar é o encontro duma saudade e duma aspiração,
o perfume, o eco dum adeus triste sem palavras nem lágrimas...
As águas do rio pararam, a reflectir mais serenamente umas vagas estrelas,
os barcos são corpos estendidos a sonhar na noite,
as asas dormem escondidas como um segredo,
e as árvores nem têm uma palavra de ternura dos ventos distantes...
E é nesta serenidade que as almas verdadeiramente acordam...
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Alberto de Serpa, Nocturno
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Saturday, June 2

De Coisas Surreais

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Uma pausa, para contar da exposição Surrealista, a acontecer em Londres
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SurReaL ThiNgS
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Nascido da ideologia política de Karl Marx e da psicanálise de Freud, o Surrealismo, um dos mais marcantes movimentos de arte do séc. XX, em fantástica mostra. O vocábulo relaciona-se a Apollinaire e a André Breton que, em 1924, o descreve como o movimento que procura mudar as percepções do mundo.
O interior ilusório que, segundo Freud, já não representa espaço de segurança, em exploração dos sonhos e do irracional.
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Serge Diaghilev, 1926, director artístico dos Ballets Russes contrata Ernest e Miró para desenharem o guarda-roupa de Romeu e Julieta.
Porque o ballet foi uma das primeiras esferas a revelar a influência do Surrealismo, a receber, de Chirico.
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Quais figuras de convite, abre a exposição em guarda-roupa, de Le Bal, 1929, Giorgio de Chirico
De Chirico transformando os dançarinos em elementos animados. Paredes, colunas, estátuas, esculturas tornadas vivas por uma noite. Ao centro, uma Sylph, personagem do ballet francês durante o séc. XIX.
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Pintura, joalharia, vestuário e peças outras desfilam nas diferentes salas. Em magia.
O Teatro, o Design, a Moda.
Na pintura, representados Max Ernest, Miró e André Masson, os artistas dos primeiros anos.

De Miró, práticas automáticas que revelam o inconsciente, disse André Berton
“É o mais surrealista de todos nós”
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Em exposição, People with Stars, 1933
..
Na sala seguinte, Marcel Jean. Panels for a Wardrobe, 1941

Estas portas, painéis do roupeiro, em trompe l'oeil, que fez para o seu apartamento em Budapeste, quando aí trabalhava como desenhador para uma empresa têxtil, foram capa do seu livro “The History of Surrealist Painting”, 1959.
A exposição diz de um trabalho de curadoria incrível. Frente às portas, um banco onde demorarmos, e as nuvens surrealistas em passagem, pela obra e pelo tecto, levadas pelo vento, em suave movimento. De ficar e ficar, em deleite.
..
No canto esquerdo da mesma sala, o biombo que serviu de livro de visitantes na Galeria Ratton, Paris. Assinado por pintores e escritores, exibe a maior parte das assinaturas dos surrealiastas que aí expuseram e de que, lamentavelmente, não possuo imagem para reproduzir.
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De Magritte, a surpresa de haver encontrado a pintura do post que abriu este blog, La Reproduction Interdite, 1937, homenagem a Edward James. Foi este, o principal mecenas dos surrealistas, em particular de Magritte e Dali, financiador, ainda, da revista Minotaure.

O quadro representa o seu protector, Edward James projectando no espelho o seu inverso. Sobre a lareira, o livro Adventures d’Arthur Gordon Pym de Edgar Allan Poe, séc. XIX, escritor do macabro, um dos preferidos deste grupo. O livro é a única figuração no quadro, cujo reflexo no espelho é correcto, algo que se torna quase impossível de notar quando apenas olhamos uma pequena reprodução.
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Magritte continua em La Jeunesse Illustrée, 1937, parada de objectos familiares ao pintor, em sequência poética, como se estes fossem palavras numa frase. A primeira versão desta pintura foi feita para a casa de Londres de Edward James (35, Wimpole st), que se divia entre esta cidade e Sussex, sua terra natal.
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e, entre outros mais, escolhi La Voix du Sang, 1947, que virei a aproveitar para um post posterior
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Outro trabalho lindissimo, de Dorothea Tanning
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Eine Kleine Nachtmusik, 1943, cujas cores se tornam impossíveis de reproduzir tais quais
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De Dali, entre vários, destaco The Hand, 1930
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e A Couple With Their Heads Full of Clouds, 1936, baseado nas silhuetas do casal a rezar de Jean-François Millet’s, Angelus, 1857-9
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Outros nomes...
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do surrealismo inglês, Leonora Carrington. Penélope, 1960
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o austríaco Hernert Bayer. The Lonely Metropolitan, 1932
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e, porque as primeiras religiões e a mitologia clássica foram, frequentemente, exploradas pelos surrealistas, o quadro abaixo,
Paul Delvaux. La Vénus Endormie, 1944.
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Influenciados pelas interpretações de Freud das antigas lendas, e a exploração de Nietsche do orgiástico culto de Dionisius, muitos destes artistas viravam-se para temas míticos de modo a criarem cenários psíquicos.
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A exposição apresenta, ainda, peças de vestuário, capas de catálogos Vogue, amostras de tecidos estampados, objectos de uso comum e peças de ourivesaria, como esta abaixo, absolutamente fantástica
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Dali. Ruby Lips Brooch (ouro, rubis e pérolas), 1949
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Óbvio que esta escolha é subjectiva, são os meus eleitos, e, para que no espaço não me alongue, ainda assim, muitos ficam de fora.
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Um mundo de sonho aberto ao sonho, Surreal Things, Victoria and Albert, Londres. Até 22 de Julho.
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De coisas surreais,
porque a fantasia faz falta
porque faz falta sonhar
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Thursday, May 31

Lua Perfumada

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. Les Amants IV, 1928
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Um rapara a cabeça
para que a branca palavra amor
nela pudesse escrever-se
com a pena de um pássaro.
Outro pendurara uma chave
sobre o peito nu
para que em cada momento
pudesse abrir a própria alma.
Por isso, quando se encontraram,
abraçaram-se
sem se conhecerem
impelidos por uma asa ardente
ou pela lua rubra, perfumada
vinda da boca de uma mulher.
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HENRIQUE DÓRIA. Amor Silencioso, in Escadas de Incêndio
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Tuesday, May 29

Reflexos de Poesia

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. Les Liaisons Dangereuses, 1936
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Por buscarme, Poesía, en ti me busqué:
deshecha estrella de agua,
se anegó en mi ser.
Por buscarte, Poesía,
en mí naufragué.
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Después sólo te buscaba
por huir de mí:
¡espesura de reflejos
en que me perdí!
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Mas luego de tanta vuelta
otra vez me vi:
el mismo rostro anegado
en la misma desnudez;
las mismas aguas de espejo
en las que no he de beber;
y en el borde del espejo,
el mismo muerto de sed.
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Octavio Paz, in El Sediento
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Sunday, May 27

A Essência au-delà da Aparência

. Philosophie au Boudoir, 1947

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Que interessa o verdadeiro eu? Segundo a ideia nietzschiana somos o conjunto das nossas máscaras. A essência que está por detrás das máscaras talvez não interesse ou não exista. Deve-se trabalhar no sentido da verdade absoluta de cada máscara. A máscara somos nós naquele momento. E o corpo é o suporte de personagens e máscaras várias.

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Maria de Medeiros
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Friday, May 25

De Mundo na Mão

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Le Beau Monde, 1962
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Escrever. Porque escrevo? Escrevo para criar um espaço habitável da minha necessidade, do que me oprime, do que é difícil e excessivo. Escrevo porque o encantamento e a maravilha são verdade e a sua dedução é mais forte do que eu. Escrevo porque o erro, a degradação e a injustiça não devem ter razão. Escrevo para tornar possível a realidade, os lugares, tempos, pessoas que esperam que a minha escrita os desperte do seu modo confuso de serem.
E para evocar e fixar o percurso que realizei, as terras, gentes e tudo o que vivi e que só na escrita eu posso reconhecer por nela recuperarem a sua essencialidade, a sua verdade emotiva, que é a primeira e a última que nos liga ao mundo. Escrevo para tornar visível o mistério das coisas. Escrevo para ser. Escrevo sem razão.
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Vergílio Ferreira in “Pensar”
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