Thursday, June 28

Paroles du Rêveur

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. Attendant l'Impossible, 1928
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I
A quoi tu penses
Je pense au premier baiser que je te donnerai.
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II

Baisers semblables aux paroles du rêveur
Vous êtes au service des forces inventées.
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III
Aux rues de petites amours
Les murs finissent en nuit noire
J'aime

Et mes rideaux sont blancs.
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IV
Sans éclat et douce à son nid
Elle apparaît dans un sourire.
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V
Le 21 du mois de juin de 1906
A midi
Tu m'as donné la vie.
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Paul Éluard, in Une longue refléxion amoureuse
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Wednesday, June 20

Envelhecer

Les Rêveries du Promeneur Solitaire, 1926
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A primeira surpresa: agrada-me.
Agora, haja o que houver, algumas coisas
que eram assustadoras deixaram de o ser:
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por exemplo, não morri cedo. Nem perdi
o meu único amor. Nenhum dos meus três filhos
se viu forçado a abandonar ninguém.
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Não me digam que esta gratidão é complacente.
Todos nos aproximamos da mesma escuridão
que para mim é o silêncio.
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Saber isto ainda torna mais vivo
o meu deleite pelas frésias de Janeiro,
pelo café quente e pelo sol de Inverno. Assim
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dizemos, juntos, num momento de ternura:
cada dia que for ganho à escuridão
é tudo o que podemos celebrar.
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Elaine Feinstein
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Saturday, June 16

Turvas Horas

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. L'Empire des Lumières, 1954
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Turva hora onde
Principia a noite
E o dia se esconde
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Hora de abandonos
Em que a gente esquece
Aquilo que somos
E o tempo adormece
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Nevoenta hora
Hora de ninguém
Em que a gente chora
Não sabe por quem.
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E tudo se esconde
Nessa hora onde
Por estranha magia
Brilha o sol de noite
E o luar de dia.
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Natália Correia
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Wednesday, June 13

São Rosas

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René Magritte. Le Tombeau des Lutteurs, 1961

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Quem foi que riu na noite silenciosa,
Que o riso deu à noite a forma de uma rosa?
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Salvador Dali. Meditative Rose, 1958

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E quem chorou depois na noite densa,
Que a rosa se desfez em lágrima suspensa?

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Natália Correia

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Sunday, June 10

Há Um Poema...

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Le Siècle des Lumières, 1967

Há sempre mais um poema triste para sair da noite...
O luar sobe, imperturbável, deste sossego da terra,
o silêncio guarda em si a voz das rochas e dos montes,
o ar é o encontro duma saudade e duma aspiração,
o perfume, o eco dum adeus triste sem palavras nem lágrimas...
As águas do rio pararam, a reflectir mais serenamente umas vagas estrelas,
os barcos são corpos estendidos a sonhar na noite,
as asas dormem escondidas como um segredo,
e as árvores nem têm uma palavra de ternura dos ventos distantes...
E é nesta serenidade que as almas verdadeiramente acordam...
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Alberto de Serpa, Nocturno
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Saturday, June 2

De Coisas Surreais

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Uma pausa, para contar da exposição Surrealista, a acontecer em Londres
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SurReaL ThiNgS
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Nascido da ideologia política de Karl Marx e da psicanálise de Freud, o Surrealismo, um dos mais marcantes movimentos de arte do séc. XX, em fantástica mostra. O vocábulo relaciona-se a Apollinaire e a André Breton que, em 1924, o descreve como o movimento que procura mudar as percepções do mundo.
O interior ilusório que, segundo Freud, já não representa espaço de segurança, em exploração dos sonhos e do irracional.
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Serge Diaghilev, 1926, director artístico dos Ballets Russes contrata Ernest e Miró para desenharem o guarda-roupa de Romeu e Julieta.
Porque o ballet foi uma das primeiras esferas a revelar a influência do Surrealismo, a receber, de Chirico.
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Quais figuras de convite, abre a exposição em guarda-roupa, de Le Bal, 1929, Giorgio de Chirico
De Chirico transformando os dançarinos em elementos animados. Paredes, colunas, estátuas, esculturas tornadas vivas por uma noite. Ao centro, uma Sylph, personagem do ballet francês durante o séc. XIX.
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Pintura, joalharia, vestuário e peças outras desfilam nas diferentes salas. Em magia.
O Teatro, o Design, a Moda.
Na pintura, representados Max Ernest, Miró e André Masson, os artistas dos primeiros anos.

De Miró, práticas automáticas que revelam o inconsciente, disse André Berton
“É o mais surrealista de todos nós”
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Em exposição, People with Stars, 1933
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Na sala seguinte, Marcel Jean. Panels for a Wardrobe, 1941

Estas portas, painéis do roupeiro, em trompe l'oeil, que fez para o seu apartamento em Budapeste, quando aí trabalhava como desenhador para uma empresa têxtil, foram capa do seu livro “The History of Surrealist Painting”, 1959.
A exposição diz de um trabalho de curadoria incrível. Frente às portas, um banco onde demorarmos, e as nuvens surrealistas em passagem, pela obra e pelo tecto, levadas pelo vento, em suave movimento. De ficar e ficar, em deleite.
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No canto esquerdo da mesma sala, o biombo que serviu de livro de visitantes na Galeria Ratton, Paris. Assinado por pintores e escritores, exibe a maior parte das assinaturas dos surrealiastas que aí expuseram e de que, lamentavelmente, não possuo imagem para reproduzir.
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De Magritte, a surpresa de haver encontrado a pintura do post que abriu este blog, La Reproduction Interdite, 1937, homenagem a Edward James. Foi este, o principal mecenas dos surrealistas, em particular de Magritte e Dali, financiador, ainda, da revista Minotaure.

O quadro representa o seu protector, Edward James projectando no espelho o seu inverso. Sobre a lareira, o livro Adventures d’Arthur Gordon Pym de Edgar Allan Poe, séc. XIX, escritor do macabro, um dos preferidos deste grupo. O livro é a única figuração no quadro, cujo reflexo no espelho é correcto, algo que se torna quase impossível de notar quando apenas olhamos uma pequena reprodução.
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Magritte continua em La Jeunesse Illustrée, 1937, parada de objectos familiares ao pintor, em sequência poética, como se estes fossem palavras numa frase. A primeira versão desta pintura foi feita para a casa de Londres de Edward James (35, Wimpole st), que se divia entre esta cidade e Sussex, sua terra natal.
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e, entre outros mais, escolhi La Voix du Sang, 1947, que virei a aproveitar para um post posterior
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Outro trabalho lindissimo, de Dorothea Tanning
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Eine Kleine Nachtmusik, 1943, cujas cores se tornam impossíveis de reproduzir tais quais
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De Dali, entre vários, destaco The Hand, 1930
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e A Couple With Their Heads Full of Clouds, 1936, baseado nas silhuetas do casal a rezar de Jean-François Millet’s, Angelus, 1857-9
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Outros nomes...
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do surrealismo inglês, Leonora Carrington. Penélope, 1960
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o austríaco Hernert Bayer. The Lonely Metropolitan, 1932
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e, porque as primeiras religiões e a mitologia clássica foram, frequentemente, exploradas pelos surrealistas, o quadro abaixo,
Paul Delvaux. La Vénus Endormie, 1944.
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Influenciados pelas interpretações de Freud das antigas lendas, e a exploração de Nietsche do orgiástico culto de Dionisius, muitos destes artistas viravam-se para temas míticos de modo a criarem cenários psíquicos.
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A exposição apresenta, ainda, peças de vestuário, capas de catálogos Vogue, amostras de tecidos estampados, objectos de uso comum e peças de ourivesaria, como esta abaixo, absolutamente fantástica
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Dali. Ruby Lips Brooch (ouro, rubis e pérolas), 1949
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Óbvio que esta escolha é subjectiva, são os meus eleitos, e, para que no espaço não me alongue, ainda assim, muitos ficam de fora.
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Um mundo de sonho aberto ao sonho, Surreal Things, Victoria and Albert, Londres. Até 22 de Julho.
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De coisas surreais,
porque a fantasia faz falta
porque faz falta sonhar
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Thursday, May 31

Lua Perfumada

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. Les Amants IV, 1928
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Um rapara a cabeça
para que a branca palavra amor
nela pudesse escrever-se
com a pena de um pássaro.
Outro pendurara uma chave
sobre o peito nu
para que em cada momento
pudesse abrir a própria alma.
Por isso, quando se encontraram,
abraçaram-se
sem se conhecerem
impelidos por uma asa ardente
ou pela lua rubra, perfumada
vinda da boca de uma mulher.
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HENRIQUE DÓRIA. Amor Silencioso, in Escadas de Incêndio
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Tuesday, May 29

Reflexos de Poesia

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. Les Liaisons Dangereuses, 1936
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Por buscarme, Poesía, en ti me busqué:
deshecha estrella de agua,
se anegó en mi ser.
Por buscarte, Poesía,
en mí naufragué.
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Después sólo te buscaba
por huir de mí:
¡espesura de reflejos
en que me perdí!
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Mas luego de tanta vuelta
otra vez me vi:
el mismo rostro anegado
en la misma desnudez;
las mismas aguas de espejo
en las que no he de beber;
y en el borde del espejo,
el mismo muerto de sed.
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Octavio Paz, in El Sediento
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Sunday, May 27

A Essência au-delà da Aparência

. Philosophie au Boudoir, 1947

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Que interessa o verdadeiro eu? Segundo a ideia nietzschiana somos o conjunto das nossas máscaras. A essência que está por detrás das máscaras talvez não interesse ou não exista. Deve-se trabalhar no sentido da verdade absoluta de cada máscara. A máscara somos nós naquele momento. E o corpo é o suporte de personagens e máscaras várias.

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Maria de Medeiros
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Friday, May 25

De Mundo na Mão

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Le Beau Monde, 1962
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Escrever. Porque escrevo? Escrevo para criar um espaço habitável da minha necessidade, do que me oprime, do que é difícil e excessivo. Escrevo porque o encantamento e a maravilha são verdade e a sua dedução é mais forte do que eu. Escrevo porque o erro, a degradação e a injustiça não devem ter razão. Escrevo para tornar possível a realidade, os lugares, tempos, pessoas que esperam que a minha escrita os desperte do seu modo confuso de serem.
E para evocar e fixar o percurso que realizei, as terras, gentes e tudo o que vivi e que só na escrita eu posso reconhecer por nela recuperarem a sua essencialidade, a sua verdade emotiva, que é a primeira e a última que nos liga ao mundo. Escrevo para tornar visível o mistério das coisas. Escrevo para ser. Escrevo sem razão.
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Vergílio Ferreira in “Pensar”
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Wednesday, May 23

Pobres Palavras Pobres


Têm má fama os adjectivos. O que fazem os adjectivos raros, justapositivos, cruzados, intrigantes? Atrasam a narrativa, demoram o pensar, fazem cair sobre as coisas ou a acção a poeira da incerteza.
Mas sem o desequilíbrio destas pobres palavras, o que seria a literatura?
O adjectivo cria uma precária onda por sobre as coisas, insegura curva sensorial, provisório tempo.
Não será o adjectivo o que na língua ficou da voz e da música?

Jorge Silva Melo

Monday, May 21

O Eterno Efémero

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La Condition Humaine. 1933
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Não foi sem dificuldade que este livro rompeu através dos interstícios do mundo, até chegar às tuas mãos leitor, para aí, como um deserto abrir noutro deserto, criar uma irradiação simbólica, magnética, onde o branco do papel e negro das palavras, essas cores que segundo Borges se odeiam, pudessem fundir-se e converter-se nessa outra a que, na enigmática expressão de Sá carneiro, a saudade se trava.
Como um desses objectos cujo peso, assim que neles pegamos, instantaneamente se dividem entre as nossas mãos e a alma, é mesmo de crer que ele esteja já dentro de ti – e algo de mim com ele.
Acolhe-o, pois, com benevolência, que, chegada a altura, havemos de arder juntos.
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Luís Miguel Nava
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Thursday, May 17

Valores

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.Valeurs Personnelles, 1952.
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Um amigo meu, homem superior, considera que a eternidade é uma manhã e dez mil anos um simples abrir e fechar de olhos. O sol e a chuva são as janelas da sua casa. Os oito pontos cardeais as suas avenidas. Caminha sem destino. Inútil se torna procurar as suas pegadas. A sua casa tem o céu por tecto e a terra por leito. O seu único pensamento é o vinho. Nada mais, aquém ou além, o preocupa.
O seu modo de viver chegou aos ouvidos de dois respeitáveis filantropos: o primeiro, um jovem nobre; o outro, um famoso letrado. Foram visitá-lo e com olhos furiosos e ranger de dentes, agitando as mangas das suas vestes reprovaram vivamente a sua conduta. Falaram-lhe dos ritos e das leis, do método e do equilíbrio. E as suas palavras zumbiam como um exército de abelhas. Entretanto o seu interlocutor encheu um copo e bebeu-o de um trago. Depois sentou-se no solo com as pernas cruzadas, encheu de novo o copo, afastou a barba e recomeçou a beber até que, a cabeça inclinada sobre o peito, caiu num estado de inditosa inconsciência, apenas interrompido por relâmpagos de semilucidez.
Os seus ouvidos não teriam escutado a voz do trovão, os seus olhos não teriam reparado numa montanha. Cessaram frio e calor, alegria e tristeza. Abandonou os seus pensamentos. Inclinado sobre o mundo contemplava o tumulto dos seres e da natureza, como algas flutuando sobre um rio...
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Lieu Ling (Séc. III), in A Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro
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Saturday, May 12

Em Decalque

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Aproveita a vida enquanto ela é vida dentro de ti.
Aproveita o teu corpo enquanto és tu que lá moras.
Aproveita. Primeiro tens mais espírito do que corpo e há dentro de ti uma convulsão de ideias, uma agitação insolorida de projectos, resoluções, descobertas.
Depois a convulsão abranda e começas a viver das ideias amealhadas.
Depois, pouco a pouco, vais perdendo essas ideias ou vai-las esquecendo no sótão de ti.
Depois resta só uma ou duas com que te vais governando.
Aproveita o teu corpo enquanto estás dentro dele.
Aproveita enquanto estás.
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Decalcomania, 1966

Aproveita a vida enquanto
ela é vida dentro de ti.
Aproveita o teu corpo
enquanto és tu que lá moras.
Aproveita. Primeiro tens
mais espírito do que corpo
e há dentro de ti uma
convulsão de ideias, uma
agitação insolorida de
projectos, resoluções,
descobertas.
Depois a convulsão
abranda e começas a viver
das ideias amealhadas.
Depois, pouco a pouco,
vais perdendo essas ideias
ou vai-las esquecendo no
sotão de ti. Depois resta só
uma ou duas com que te
vais governando.
Aproveita o teu corpo
enquanto estás dentro dele.
Aproveita enquanto estás.
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Vergílio Ferreira, Carpe Diem in Pensar
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Friday, May 11

Fingimentos

. La Durée Poignardée, 1938
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O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
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E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
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E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
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Fernando Pessoa, Autopsicografia
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Thursday, May 10

Correspondências

La Reproduction Interdite, 1937
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La Nature est un temple où de vivants piliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles;
L'homme y passe à travers des forêts de symboles
Qui l'observent avec des regards familiers.
Comme de longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se répondent.

Il est des parfums frais comme des chairs d'enfants,
Doux comme les hautbois, verts comme les prairies,
- Et d'autres, corrompus, riches et triomphants,
Ayant l'expansion des choses infinies,
Comme l'ambre, le musc, le benjoin et l'encens,
Qui chantent les transports de l'esprit et des sens.
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Baudelaire, Les fleurs du mal IV
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