Monday, May 21

O Eterno Efémero

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La Condition Humaine. 1933
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Não foi sem dificuldade que este livro rompeu através dos interstícios do mundo, até chegar às tuas mãos leitor, para aí, como um deserto abrir noutro deserto, criar uma irradiação simbólica, magnética, onde o branco do papel e negro das palavras, essas cores que segundo Borges se odeiam, pudessem fundir-se e converter-se nessa outra a que, na enigmática expressão de Sá carneiro, a saudade se trava.
Como um desses objectos cujo peso, assim que neles pegamos, instantaneamente se dividem entre as nossas mãos e a alma, é mesmo de crer que ele esteja já dentro de ti – e algo de mim com ele.
Acolhe-o, pois, com benevolência, que, chegada a altura, havemos de arder juntos.
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Luís Miguel Nava
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Thursday, May 17

Valores

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.Valeurs Personnelles, 1952.
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Um amigo meu, homem superior, considera que a eternidade é uma manhã e dez mil anos um simples abrir e fechar de olhos. O sol e a chuva são as janelas da sua casa. Os oito pontos cardeais as suas avenidas. Caminha sem destino. Inútil se torna procurar as suas pegadas. A sua casa tem o céu por tecto e a terra por leito. O seu único pensamento é o vinho. Nada mais, aquém ou além, o preocupa.
O seu modo de viver chegou aos ouvidos de dois respeitáveis filantropos: o primeiro, um jovem nobre; o outro, um famoso letrado. Foram visitá-lo e com olhos furiosos e ranger de dentes, agitando as mangas das suas vestes reprovaram vivamente a sua conduta. Falaram-lhe dos ritos e das leis, do método e do equilíbrio. E as suas palavras zumbiam como um exército de abelhas. Entretanto o seu interlocutor encheu um copo e bebeu-o de um trago. Depois sentou-se no solo com as pernas cruzadas, encheu de novo o copo, afastou a barba e recomeçou a beber até que, a cabeça inclinada sobre o peito, caiu num estado de inditosa inconsciência, apenas interrompido por relâmpagos de semilucidez.
Os seus ouvidos não teriam escutado a voz do trovão, os seus olhos não teriam reparado numa montanha. Cessaram frio e calor, alegria e tristeza. Abandonou os seus pensamentos. Inclinado sobre o mundo contemplava o tumulto dos seres e da natureza, como algas flutuando sobre um rio...
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Lieu Ling (Séc. III), in A Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro
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Saturday, May 12

Em Decalque

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Aproveita a vida enquanto ela é vida dentro de ti.
Aproveita o teu corpo enquanto és tu que lá moras.
Aproveita. Primeiro tens mais espírito do que corpo e há dentro de ti uma convulsão de ideias, uma agitação insolorida de projectos, resoluções, descobertas.
Depois a convulsão abranda e começas a viver das ideias amealhadas.
Depois, pouco a pouco, vais perdendo essas ideias ou vai-las esquecendo no sótão de ti.
Depois resta só uma ou duas com que te vais governando.
Aproveita o teu corpo enquanto estás dentro dele.
Aproveita enquanto estás.
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Decalcomania, 1966

Aproveita a vida enquanto
ela é vida dentro de ti.
Aproveita o teu corpo
enquanto és tu que lá moras.
Aproveita. Primeiro tens
mais espírito do que corpo
e há dentro de ti uma
convulsão de ideias, uma
agitação insolorida de
projectos, resoluções,
descobertas.
Depois a convulsão
abranda e começas a viver
das ideias amealhadas.
Depois, pouco a pouco,
vais perdendo essas ideias
ou vai-las esquecendo no
sotão de ti. Depois resta só
uma ou duas com que te
vais governando.
Aproveita o teu corpo
enquanto estás dentro dele.
Aproveita enquanto estás.
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Vergílio Ferreira, Carpe Diem in Pensar
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Friday, May 11

Fingimentos

. La Durée Poignardée, 1938
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O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
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E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
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E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
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Fernando Pessoa, Autopsicografia
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Thursday, May 10

Correspondências

La Reproduction Interdite, 1937
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La Nature est un temple où de vivants piliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles;
L'homme y passe à travers des forêts de symboles
Qui l'observent avec des regards familiers.
Comme de longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se répondent.

Il est des parfums frais comme des chairs d'enfants,
Doux comme les hautbois, verts comme les prairies,
- Et d'autres, corrompus, riches et triomphants,
Ayant l'expansion des choses infinies,
Comme l'ambre, le musc, le benjoin et l'encens,
Qui chantent les transports de l'esprit et des sens.
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Baudelaire, Les fleurs du mal IV
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