Sunday, September 28

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Le magicien, 1952
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Você nunca conhece realmente as pessoas. O ser humano é mesmo o mais imprevisível dos animais. Das criaturas. Vá lá. Gosto de voltar a este tema. Outro dia apareceu uma moça aqui. Esguia, graciosa, pedindo que eu autografasse meu livro de poesia, "tá quentinho, comprei agora". Conversamos uns quinze minutos, era a hora do almoço, parecia tão meiga, convidei-a para almoçar, agradeceu muito, disse-me que eu era sua "ídala", mas ia almoçar com alguém e não podia perder esse almoço. Alguém especial?, perguntei. Respondeu nítida: "pé-de-porco". Não entendi. Como? "Adoro pé-de-porco, pé-de-boi também". Ahn... interessante, respondi. E ela se foi apressada no seu Fusquinha. Não sei por que não perguntei se ela gostava também de cu de leão. Enfim, fiquei pasma. Surpresas logo de manhã.
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Les mois des vendanges, 1959
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Olga, uma querida amiga passando alguns dias aqui conosco, me diz: pois você sabe que me trouxeram uma noite um pé-perna de porco, todo recheado de inverossímeis, como uma delicadeza para o jantar? Parecia uma bota. Do demo, naturalmente. E lendo uma entrevista com W. H. Auden, um inglês muito sofisticado, o entrevistador pergunta-lhe: "O que aconteceu com seus gatos?" Resposta: "Tivemos que matá-los, pois nossa governanta faleceu". Auden também gostava de miolo, língua, dobradinha, chouriços e achava que "bife" era uma coisa para as classes mais baixas, "de um mau gosto terrível", ele enfatiza. E um outro cara que eu conheci, todo tímido, parecia sempre um urso triste, também gostava de poesia... Uma tarde veio se despedir, ia morar em Minas... Perguntei: "E todos aqueles gatos de que você gostava tanto?" Resposta: "Tive de matá-los". "Mas por quê?!" Resposta: "Porque gatos gostam da casa e a dona que comprou minha casa não queria os gatos". "Você não podia soltá-los em algum lugar, tentar dar alguns?" Olhou-me aparvalhado: "Mas onde? Pra quem?" "E como você os matou?" "A pauladas", respondeu tranqüilo, como se tivesse dado uma morte feliz a todos eles. E por aí a gente pode ir, ao infinito. Aqueles alemães não ouviam Bach, Wagner, Beethoven, não liam Goethe, Rilke, Hölderlin(?????) à noite, e de dia não trabalhavam em Auschwitz? A gente nunca sabe nada sobre o outro. E aquele lá de cima, o Incognoscível, em que centésima carreira de pó cintilante sua bela narina se encontrava quando teve a idéia de criar criaturas e juntá-las? Oscar, traga os meus sais.
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Hilda Hilst, in jornal Correio Popular, Campinas, São Paulo, 1.III.1993
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Sunday, September 7

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. Hendrick ter Brugghen. Héraclitus, 1628
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E há poetas que são artistas
E trabalham nos seus versos
Como um carpinteiro nas tábuas!…
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Le pont d'héraclite, 1935
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Que triste não saber florir!
Ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro
E ver se está bem, e tirar se não está!…
Quando a única casa artística é a Terra toda
Que varia e está sempre bem e é sempre a mesma.

Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem respira,
E olho para as flores e sorrio…
Não sei se elas me compreendem
Nem sei eu as compreendo a elas,
Mas sei que a verdade está nelas e em mim
E na nossa comum divindade
De nos deixarmos ir e viver pela Terra
E levar ao colo pelas Estações contentes
E deixar que o vento cante para adormecermos
E não termos sonhos no nosso sono.
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Alberto Caeiro

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Tuesday, April 15

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La Victoire, 1939

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Sur mes cahiers d'écolier Sur mon pupitre et les arbres Sur le sable sur la neige J'écris ton nom Sur toutes les pages lues Sur toutes les pages blanches Pierre sang papier ou cendre J'écris ton nom Sur les images dorées Sur les armes des guerriers Sur la couronne des rois J'écris ton nom Sur la jungle et le désert Sur les nids sur les genêts Sur l'écho de mon enfance J'écris ton nom Sur les merveilles des nuits Sur le pain blanc des journées Sur les saisons fiancées J'écris ton nom Sur tous mes chiffons d'azur Sur l'étang soleil moisi Sur le lac lune vivante J'écris ton nom Sur les champs sur l'horizon Sur les ailes des oiseaux Et sur le moulin des ombres J'écris ton nom Sur chaque bouffée d'aurore Sur la mer sur les bateaux Sur la montagne démente J'écris ton nom Sur la mousse des nuages Sur les sueurs de l'orage Sur la pluie épaisse et fade J'écris ton nom Sur les formes scintillantes Sur les cloches des couleurs Sur la vérité physique J'écris ton nom Sur les sentiers éveillés Sur les routes déployées Sur les places qui débordent J'écris ton nom Sur la lampe qui s'allume Sur la lampe qui s'éteint Sur mes maisons réunis J'écris ton nom Sur le fruit coupé en deux Dur miroir et de ma chambre Sur mon lit coquille vide J'écris ton nom Sur mon chien gourmand et tendre Sur ces oreilles dressées Sur sa patte maladroite J'écris ton nom Sur le tremplin de ma porte Sur les objets familiers Sur le flot du feu béni J'écris ton nom Sur toute chair accordée Sur le front de mes amis Sur chaque main qui se tend J'écris ton nom Sur la vitre des surprises Sur les lèvres attentives Bien au-dessus du silence J'écris ton nom Sur mes refuges détruits Sur mes phares écroulés Sur les murs de mon ennui J'écris ton nom Sur l'absence sans désir Sur la solitude nue Sur les marches de la mort J'écris ton nom Sur la santé revenue Sur le risque disparu Sur l'espoir sans souvenir J'écris ton nom Et par le pouvoir d'un mot Je recommence ma vie Je suis né pour te connaître Pour te nommer Liberté
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paul elouard, 1942
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Sunday, March 23

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. Le Double Secret, 1927
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Eu me construo e ergo,
peça a peça
De saudade, vagar e reflexão.
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Vitorino Nemésio, in Eu, Comovido a Oeste
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Friday, March 7

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. La Mémoire, 1948
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Je remplace la mélancolie par le courage, le doute par la certitude, le désespoir par l'espoir, la méchanceté par le bien, les plaintes par le devoir, le scepticisme par la foi, les sophismes par la froideur du calme et l'orgueil par la modéstie.
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Lautréamont, in Poésies I
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Sunday, February 17

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. Les Misanthropes, 1955
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(...)
Les blés à côté de la colline formaient un choeur de millions de voix suaves, chaque tige ayant son chant propre, accordé avec tous les autres. La terre sous ces blés psalmodiait je ne sais quel étrange cantique. Le ciel avait pris un autre sens. Le bleu le définissait et je ne le nommais plus ciel mais le nommais Bleu. Les oiseaux dans les airs prenaient un prix infini. Créatures éternelles, rien ne pouvait les corrompre et leur vol se prolongeait dans des immensités sans fin.
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Tout cela était à la fois tangible et impalpable, présent et invisible, proche et insaisissable.
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Je redescendis aussi vite en moi que j'en étais sorti. Je me retrouvai les pieds toujours bien ancrés sur le sol, me réadaptant à la lumière du soleil habituel, qui me parut terne.
(...)
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Paul Eluard, in L'Eclat des Blés
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Sunday, January 6

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.La Clef des Champs, 1936
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A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.
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A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.
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Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.
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Sophia de Mello Breyner
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Tuesday, December 18

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. Les Grands Rendez-Vous, 1947
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Meu Deus, aqui estou.
E no mais não repares,
por ser esta noite a Noite que é!
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Em versos Te rezo.
E no mais não repares,
por ser esta noite a Noite mais calma!
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- Conduz-me aos mais altos lugares
da minha fé!
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- Conduz-me aos mais altos lugares
da minha alma!
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Rodrigo Emílio, Pequeno Presépio de Poemas de Natal
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Saturday, December 15

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Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
que traduzem a ternura mais funda
e mais quotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo.
Teadoro, Teodora.
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Manuel Bandeira
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Monday, December 3

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. Les Amants I, 1928
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Numa esquina de Paris
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Dezenas e dezenas de pessoas passam ininterruptamente ao longo do passeio.
Umas para lá.
Outras para cá.
Umas para cá.
Outras para lá.
Mas cada uma que passa
tem de fazer na esquina um pequeno rodeio
para não se esbarrar com o par que aí se abraça.
Olhos cerrados, lábios juntos e ardentes,
tentam matar a inesgotável sede.
Através dos seus corpos transparentes
lê-se na esquina da parede:
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DANS CETTE PLACE A ÉTÉ TUÉ
MAURICE DUPRÉ
HÉROS DE LA RESISTANCE.
VIVE LA FRANCE.
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António Gedeão in Linhas de Força, 1967
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Friday, November 23

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Le Faux Miroir, 1928

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Teus olhos sensuais
Libidinosa Marta,
Teus olhos dizem mais
Que a tua própria carta.
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As grandes comoções
Tu, neles, sempre espelhas;
São lúbricas paixões
As vívidas centelhas…
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Teus olhos imortais,
Mulher, que me dissecas,
Teus olhos dizem mais,
Que muitas bibliotecas!
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Cesário Verde, Lúbricas
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Saturday, November 17

Voyeur[ismos]

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. L'Espion, 1928
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ou o
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tédio das curiosidades satisfeitas
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Monday, November 12

verosimilhança

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. La Lectrice Soumise, 1928

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Todos os bons livros se assemelham no facto de serem mais verdadeiros do que se tivessem acontecido realmente, e que, terminada a leitura de um deles, sentimos que tudo aquilo nos aconteceu mesmo, que agora nos pertencem o bem e o mal, o êxtase, o remorso e a mágoa, as pessoas e os lugares e o tempo que fez.

Se conseguires dar essa sensação às pessoas, então és um bom escritor.
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Ernest Hemingway, in O Bom Escritor
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Saturday, October 27

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La Valse Hésitation, 1950
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Dá-me alegria...
Incendeia meu sangue arrefecido!
E depois meu amor...
Depois... deixa-me sonhar...
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Judith Teixeira
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Wednesday, October 17

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. Le Seducteur, 1953
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A viagem fazemo-la num qualquer modesto cargueiro
Existe ainda um porto onde não tivéssemos tocado?
Existe alguma espécie de tristeza que ainda não tivéssemos cantado?
O horizonte que a cada manhã tínhamos pela frente
Não era igual ao que à noite deixávamos para trás?
Quantas estrelas desfilaram à nossa frente
Roçando as águas
Não era cada aurora o reflexo
Da nossa grande nostalgia?
Mas é em frente que vamos, não é verdade?
É em frente que vamos.
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Nâzim Hikmet in Poemas da Prisão e do Exílio
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Sunday, October 7

Petits Riens

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Le Mariage de Minuit, 1926
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Mieux vaut n'penser à rien
Que n'pas penser du tout
Rien c'est déjà beaucoup
Ce sont ces petits riens
Que j'ai mis bout à bout
Ces petits riens
Qui me venaient de vous
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Serge Gainsbourg
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Sunday, September 30

porque a memória é de pedra

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. Souvenir de Voyage III, 1951
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O homem ama na terra natal os seus hábitos, se ali reside ou residiu muito tempo; ama a sua casa e o seu agro, se os tem; e ama, sobretudo, a sua infância, que lhe comandará a vida inteira e se amalgama com o drama biológico do envelhecimento e da morte.
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David Mourão-Ferreira
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Saturday, September 22

Desvarios

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. Le Premier Jour, 1943
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Ainda haverá música um dia? Subitamente às vezes penso, um terror absurdo, que é da menoridade, a música, a arte, tudo aquilo em que precisamos de reclinar um pouco a cabeça.
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Vergílio Ferreira
in Alegria Breve
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Tuesday, September 18

Marioneta de Trapo

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Entr'acte, 1927
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Se, por um instante Deus se esquecesse do que sou
uma marioneta de trapo e me presenteasse
com um pedaço de vida, possivelmente não diria
tudo o que penso, mas, certamente, pensaria
tudo o que digo.
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Daria valor às coisas não pelo que valem mas
pelo que significam.
Dormiria pouco, sonharia mais pois sei que a cada
minuto que fechamos os olhos, perdemos
sessenta segundos de luz.
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Andaria quando os demais
parassem, acordaria quando os outros dormem.
Escutaria quando os outros falassem e gozaria um
bom sorvete de chocolate.
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Se Deus me presenteasse com um bocado de vida,
vestiria simplesmente, me jogaria de bruços
no solo, deixando a descoberto não apenas meu
corpo, como minha alma.
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Deus meu, se eu tivesse um coração escreveria meu
ódio sobre o gelo e esperaria que o sol saisse.
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Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre estrelas
um poema de Mario Benedetti e uma canção de
Serrat seria a sereneta que ofereceria à lua.
Regaria as rosas com minhas lágrimas para sentir a
dor dos espinhos e o encarnado beijo das suas pétalas.
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Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida.
não deixaria passar um só dia sem dizer às gentes
te amo, te amo.
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Convenceria cada mulher e cada homem que são
os meus favoritos e viveria enamorado do amor.
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Aos homens lhes provaria como estão enganados ao
pensar que deixam de se apaixonar quando
envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam
de se apaixonar.
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A uma criança, lhe daria asas, mas deixaria
que aprendesse a voar sozinha.
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Aos velhos ensinaria que a morte não chega com a
velhice, mas com o esquecimento.
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Tantas coisas, aprendi com vocês, os homens...
Aprendi que todo o mundo quer viver no cimo da montanha,
sem saber que a verdadeira felicidade
está na forma de subir a escarpa.
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Aprendi que quando um recém nascido aperta com a sua
pequena mão o dedo de seu pai, o tem
prisioneiro para sempre.
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Aprendi que um homem só tem direito de olhar um
outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se.
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São tantas as coisas que pude aprender com vocês, os homens...
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Johnny Welch ou Garcia Marquez
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a polémica sobre a sua autoria persiste
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Thursday, September 13

Por Entre Fios

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Les Objects Familiers, 1928
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Há homens que rezam na penumbra
das catedrais dolentes e há outros
que do alto das pontes olham
a escuridão rumorejante das águas.
Há homens que esperam na orla
marítima e outros arrastando-se
no viscoso esterco dos subterrâneos.
Há homens debruçados em pleno azul
e outros que deslizam sobre densos verdes;
há os desatentos na atenção e os que
espreitam atentamente a ocasião.
Há homens por fora e por dentro
do cimento armado, suspensos
das mil ciladas do quotidiano voraz;
de encontro aos muros, às paredes,
ao sol do meio-dia, ao visco da noite,
às sediças solicitações de cada instante.
Há a impotência poderosa da oração
e a obsessão amarga dos suicidas
e, de permeio, os que, porque hesitam,
porque ignoram, porque não crêem,
não oram, nem se suicidam
e se quedam ante a impossibilidade de destrinça
entre o fio da vida e a vida por um fio.
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Rui Knopfli, in O Fio da Vida
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